• Dr. Antonio Baptista Gonçalves

DESCASO COM O ACASO

O Brasil se aproxima de 550 mil mortes de COVID-19. Somente em São Paulo foram 132 mil vítimas do vírus. Em que pese a vacinação em andamento, a imunização ainda está aquém do ideal, especialmente porque a percentagem de pessoas com duas doses é baixa. Fora isso, existem pessoas que se portam como se a pandemia fosse um mero acaso e relativizam, tanto seus efeitos, quanto as consequências.

Em São Paulo dois acontecimentos, um em abril de 2020 e outro neste final de semana, comprovam o descaso com o acaso. Afinal, em ambos um advogado resolveu dar uma festa para uma elevada quantidade de pessoas, e a maioria sem máscaras e com uma aglomeração inevitável. Na primeira, em seu apartamento, uma festa que teve a presença da polícia dada a quantidade de pessoas. Já a segunda, ainda mais sofisticada, teve a presença de mais de 500 pessoas e a cobrança de R$1.600 por pessoa com direito a um pocket show de uma dupla sertaneja.

O descaso se constata não só com o desrespeito à aglomeração e a elevada concentração de pessoas, mas sim com a possibilidade de aumento de perda de vidas em uma pandemia que ainda não terminou e não tem data para ser controlada.

Enquanto muitos morrem outros festejam.

Quando as autoridades sanitárias chegaram para interditar o local uma das responsáveis esbravejou: “Vocês deveriam fiscalizar as favelas isso sim!” Outro descaso com o acaso, como se a pandemia fizesse diferença entre ricos e pobres e o pior: Os ricos têm de ter passe livre para fazer o que bem entenderem. Portanto, se pegarem o vírus tem condições para pagarem por sua eventual internação.

A fiscalização apurou que a maioria das pessoas não usava máscara, o que somente atesta o descaso com o acaso, pois muitos jovens estavam presentes.

Da forma como está a legislação vigente, as providências que os agentes poderiam fazer eram lacrar o estabelecimento e aplicar uma multa ao seu proprietário. Porém, como no local funciona um escritório de advocacia, não se questiona que o mesmo será liberado em curto espaço de tempo. Pela capacidade econômica do anfitrião, a multa não terá o efeito socioeducativo a qual se propõe, assim, a consequência será de baixo efeito prático.

Casos como o desta festa deste refletem a falta de empatia e de civilidade das pessoas neste momento. Claro está que o “nós” de sociedade deixou de importar para preponderar o “eu” e este ser individual não se importa com terceiros, com quantos morrem, têm sequelas, porque, no fim das contas, é tudo um mero acaso.

Antonio Baptista Gonçalves é Advogado, Pós-Doutor, Doutor e Mestre pela PUC/SP e Presidente da Comissão de Criminologia e Vitimologia da OAB/SP – subseção de Butantã.

Posts recentes

Ver tudo

No próximo dia 25 de novembro de 2021 haverá eleição na maior secional da advocacia nacional para renovar os quadros tanto da diretoria, do conselho estadual e da diretoria da Caixa de Assistência em

O final de semana foi conturbado, após cenas envolvendo o cantor Nego do Borel e Dayane Mello, acerca da possibilidade de estupro de vulnerável. De início, as redes sociais – atual tribunal digital –